A CAPELA DO CÉU
A Capela do Céu.
A Capela do Céu é uma encomenda privada para a construção de um jazigo familiar. Pela segunda vez, vejo-me confrontado com o tema da morte no desenvolvimento do meu trabalho de arquitectura. O amor pelos que partiram materializa-se através de uma construção, como um manifesto da memória numa tentativa de combater a saudade. As expectativas da encomenda são nobres e exigentes, uma vez que tocam terrenos íntimos e emocionais. Tentei, mais uma vez, desenhar um pequeno poema, uma espécie de ‘Haiku’, que sintetizasse as preocupações e sentimentos que me foram transmitidos pelos clientes. Espero ter respondido com alguma dignidade.
Por se tratar de uma construção com características simbólicas de grande apreço para a família que a deseja edificar, a arquitectura da capela procura traduzir alguns desses significados.
No exterior, apresenta-se como um volume de mármore de lioz (a pedra de eleição do requerente), fechado e compacto, evocando uma simbologia de união e intimidade familiar. Na fachada principal, destaca-se a porta do jazigo, executada em barras de aço que, pela sua orientação, desenham a cruz de Cristo. A verticalidade da porta mimetiza a dos ciprestes presentes no cemitério, como símbolo de eternidade. Na fachada posterior, abre-se uma janela horizontal junto ao pavimento, que representa a ligação da família à terra - a terra enquanto lugar de origem (a Sertã) e a terra enquanto cenário da vida.
No interior, ladeada pela janela horizontal, foi criada uma floreira permanente onde serão plantados lírios da paz (Spathiphyllum wallisii), planta que simboliza o repouso sereno dos que partiram.
A cobertura é, talvez, o elemento simbólico de maior destaque em toda a construção. A ideia nasce da devoção da família ao Espírito Santo. Segundo a doutrina católica, a Nuvem e a Luz são símbolos inseparáveis nas manifestações do Espírito Santo. Nas teofanias do Antigo Testamento, a Nuvem, ora escura, ora luminosa, revela o Deus vivo e salvador, manifestando a transcendência da Sua Glória. Isso acontece também na Tenda da Reunião, quando Moisés sobe o monte Sinai durante a caminhada no deserto; e com Salomão, por ocasião da dedicação do Templo. Em Lucas 1:35, surge novamente a mesma representação simbólica: "O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a Sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus." A anunciação de Maria é outro exemplo, retratada ao longo da história da arte como uma pomba que emana um feixe de luz sobre o seu rosto. A mesma representação aparece ainda no episódio da montanha da transfiguração: "O Espírito Santo veio numa nuvem que os envolvia" (a Jesus, Moisés, Elias, Pedro, Tiago e João), e "Dela saiu uma voz, dizendo: Este é o meu Filho, o meu escolhido, ouvi-o." (Lucas 9:34-35), essa Nuvem que "subtrai Jesus aos olhos" dos discípulos no dia da Ascensão.
O jazigo abre-se para o céu, para as nuvens e para a luz, através de uma cobertura em vidro transparente, de modo que todos os que ali descansarem eternamente possam ser tocados pelo Espírito Santo. A cobertura transparente, em contraponto ao vão horizontal, representa a vida celestial eterna e a esperança na ressurreição.
Fotografia: Vítor Leal Barros, Alexander Bogorodskiy
Consultores: Davide Souto Eng.º, António Lemos Eng.º
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