top of page
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 27 de fev.

«Encaminhou-se para o elevador como se soubesse, e sabia, que a solidão não era um estado, mas uma condição, um lugar mais firme e mais fundo, o único no qual os pés encontravam chão. Cedia, mas era chão.»

 

Há romances que se fecham na narrativa. Matilde, de H. G. Cancela, fecha-se numa ideia. Ou talvez numa constatação ontológica. A solidão não surge como acidente emocional nem como consequência circunstancial da vida. Surge como território. Como fundação.

 

Ao terminar a leitura, uma palavra insistia em regressar. Invulnerabilidade.

 

As sociedades urbanas modernas construíram uma rede tão eficaz de suporte à existência que um indivíduo pode viver funcionalmente sem depender afectivamente de ninguém. Come-se, trabalha-se, desloca-se, paga-se contas, ocupa-se o tempo. Tudo funciona. Nada falta no plano material, desde que haja dinheiro. Não é preciso ser rico nem pobre, apenas ter o suficiente para uma suposta autonomia. O afecto deixou de ser necessidade para se tornar possibilidade. É nesse intervalo que o romance se instala.

 

A protagonista não é apresentada como vítima de um acontecimento extraordinário. A sua condição é banal, reconhecível, quase administrativa. Não possui rede familiar activa, não mantém relações amorosas duradouras, não cultiva amizades profundas. À sua volta existem colegas, vizinhos, presenças ocasionais que coexistem sem verdadeiro encontro. O gesto mais inquietante não reside apenas na ausência de vínculos. Surge no movimento duplo que o livro revela com precisão clínica. Ela não procura ninguém, mas também ninguém a procura.

 

Não há hostilidade aberta nem exclusão evidente. Apenas trajectórias paralelas. Cada um absorvido na própria sobrevivência quotidiana. O mundo actual permite, e talvez incentive, esta convivência sem ligação, onde olhar verdadeiramente para o outro deixou de ser necessidade colectiva. Aquilo que poderia parecer fragilidade individual revela-se antes um sinal do tempo.

 

Nada disto soa estranho ao leitor. Pelo contrário, é perturbadoramente familiar.

 

Ao acompanhar a personagem, começamos a formular as mesmas justificações que organizam a sua vida. Evitar encontros desgastantes. Desconfiar da intimidade fácil. Preservar o espaço pessoal. Preferir estar só a partilhar presença sem sentido. A certa altura, a pergunta deixa de ser sobre ela e passa a ser sobre nós. Onde termina a lucidez e começa o afastamento patológico? Em que momento a autoprotecção se transforma em clausura?

 

É aqui que Matilde se torna profundamente inquietante. Não pela excepcionalidade dos acontecimentos, mas pela sua verosimilhança emocional. O romance não empurra o leitor para o delírio. Convida-o a aproximar-se lentamente dele, sem perceber exactamente quando a fronteira foi atravessada.

 

A escrita acompanha esse movimento. A linguagem é económica, quase mecânica, composta por frases curtas, repetidas, depuradas até ao essencial, sujeito e complemento. O autor parece colocá-la ao serviço da narrativa mais do que usá-la como afirmação estilística. Essa escolha revela-se coerente com o universo do romance e, de certa forma, ética. A escrita recusa ornamentar aquilo que é vivido como funcional, repetitivo, quase automático. As anáforas criam um ritmo de rotina e compulsão, como se a própria frase obedecesse à vida que descreve. A forma não comenta o afastamento humano. Habita-o.

 

O romance constata uma solidão fundamental. A protagonista revela-a em cada acção. O afecto, que poderia ser a única forma de mitigá-la, não existe ou surge idealizado. A clausura existencial instala-se. A independência funcional confunde-se com liberdade, e o isolamento descamba em patologia e delírio. Parece-me o diagnóstico do livro. A invulnerabilidade torna-se, portanto, um modelo de vida. O preço dessa escolha é uma existência aparentemente segura, organizada, mas progressivamente desumanizada.

 

A frase final permanece depois do livro fechado. A solidão como chão. Como lugar firme. Como fundação. Não discordo, é condição. Mas o autor desloca-nos a consciência para uma pergunta silenciosa: Se já não precisamos uns dos outros para viver, o que restará de humano quando deixarmos de nos procurar?

 

Foi o primeiro livro que li de H. G. Cancela. Suspeito que não será o último. Há ficções que inventam mundos. Outras limitam-se a mostrar o nosso com uma nitidez desconcertante. Matilde pertence claramente à segunda categoria.


 
 
 
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 22 de jan.

E foi assim, em Freamunde, terra onde o meu coração aqueceu apesar do frio, que encerrei as apresentações de ‘Hotel La Solitude’. Houve ali qualquer coisa de regresso a casa, um fechar de ciclo que soube a lugar certo. Ficam ainda guardadas uma ou duas surpresas para um futuro próximo, mas é tempo de recolher e dedicar-me à escrita do novo romance, que segue já a meio caminho.

Agradeço ao Pedro Ribeiro pelas palavras generosas e pela forma pessoal como leu o livro e o devolveu. Senti-me verdadeiramente confortável. O meu obrigado ao Arménio Ribeiro e à Junta de Freguesia de Freamunde por todo o apoio e pela hospitalidade com que nos receberam. As fotografias foram-me gentilmente enviadas pela Idalina Ribeiro.

Deixo, por fim, um abraço a todos os que nos vieram ouvir. Foi bom rever amigos, conversar sem pressa e partilhar este momento com pessoas que tanto estimo.



 
 
 
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 22 de jan.


Kudos é o último volume da trilogia de Rachel Cusk, iniciada com Outline e continuada em Transit. Optei por começar pelo fim, e há nisso um gesto deliberado: conhecer Faye pelo término, ou melhor, não a conhecer de todo. Apesar de narradora, o sujeito é continuamente deslocado, quase dissolvido. Esse apagamento não é efeito colateral, é o núcleo do projecto. Ler Kudos primeiro permite perceber com clareza a radicalidade da narrativa, uma escrita onde o eu se retrai, recusa poder, e escuta.


Ao longo do livro, Faye atravessa conversas, encontros, deslocações, conferências, jantares, praias. Nada se fixa. Fala sempre pouco de si. Há momentos em que parece que o fará, mas algo inesperado se sobrepõe. Mesmo quem a entrevista projecta a própria narrativa, confessa-se, emite opinião, procura validação. Faye, por sua vez, parece muitas vezes invisível aos outros, um corpo presente mas descentrado, absorvendo sem se impor. O narrador existe sobretudo como superfície de recepção. Esse descentramento cria um espaço estranho, quase desconfortável, onde a literatura abdica do que tradicionalmente se espera: interioridade, arco narrativo, resolução. E no entanto, os olhos dificilmente se distraem das páginas.


Outro apagamento importante é o da geografia. Os lugares são difusos, intercambiáveis. Durante grande parte do livro, a acção parece situar-se em qualquer cidade do norte ou centro da Europa, ou num espaço urbano abstracto. No final, pequenos indícios sugerem Lisboa, mas o território nunca se fixa. Há algo, a certa altura, que quase revela a saudade sem nomeá-la. Este esbatimento do espaço reflecte a contemporaneidade. Vivemos num mundo em que os lugares perderam densidade simbólica, tornaram-se transitórios, funcionais, provisórios. Nada se enraíza, tudo é líquido, como diagnosticou Bauman. Relações, discursos e identidades surgem e dissipam-se com a mesma rapidez. Kudos regista este estado de deslocamento sem dramatização. Não há lamento nem cinismo, apenas observação. É aí que o livro se torna político. A escuta surge como único meio de resistência ao ruído, à opinião fácil, à necessidade de afirmação. Escutar, no caso de Faye, não é empatia nem reconciliação. É uma forma de sobreviver ao mundo enquanto sujeito.


O final de Kudos devolve-nos à crueza do que Cusk observa. Na praia, Faye presencia um homem robusto, barbado, que urina no mar onde ela se banha, olhando-a com prazer. Ele não se questiona se exerce poder e esse é precisamente o problema. O gesto é simultaneamente escatológico e simbólico: afirma um tipo de masculinidade, marca território, mas não pede autorização nem dialoga. Faye não intervém. Todo o livro constrói a noção de que a intervenção verbal já falhou. Não há discurso que resolva a situação. Há apenas tempo, corpo e o limite possível. Ela permanece na água, consciente, esperando que o gesto se esgote, observando o poder bruto existir e exaurir-se por si mesmo. Esta cena sintetiza o que Cusk tão habilmente capta: deslocamento, exposição, limitação do discurso e sobrevivência do corpo como testemunha e resistência. O homem age sem questionar o poder que manifesta, e é essa inconsciência que revela a força do gesto.


A cena é literariamente poderosa porque permite múltiplas leituras: poder masculino, política do espaço, limites do corpo, do outro, silêncio e observação como únicas respostas. Faye não julga nem intervém. Permanece apenas consciente de si e do outro. Observar torna-se, paradoxalmente, um acto de soberania e resistência. A linguagem já não funciona, está saturada de sentidos, já não denuncia, ou talvez a autora tenha percebido a violência intrínseca à natureza do discurso, seja ele qual for.


Toda a interpretação aqui apresentada não pretende fixar nem esgotar a literatura de Cusk. A força da narrativa reside na ambiguidade, no desconforto e na sensação imediata que provoca no leitor. Cada leitura é uma extensão viva do projecto, e o espaço deixado entre as linhas é tão fundamental quanto aquilo que se descreve. Ignorá-lo seria trair a própria escrita da autora.


Rachel Cusk é uma das vozes contemporâneas que mais me fascina. Expõe o mundo actual com inteligência cortante, sem moralismos, percebendo os dramas e a sua complexidade, mostrando-os com clareza implacável. Kudos não oferece respostas fáceis nem conforto, mas algo mais raro: percepção, densidade e uma escuta resistente ao cinismo. Fá-lo com assertividade e humor, sem resvalar na ironia fácil.


 
 
 
  • Instagram
  • Facebook
  • Threads

© 2025 VÍTOR LEAL BARROS  

RUA DE SANTA CATARINA, 678   4000-446 PORTO - PORTUGAL

+351 220 937 444

bottom of page