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  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 31 de jul.

Vi Love, de Dag Johan Haugerud. Filme de uma simplicidade formal aparente, construído quase só por diálogos. De uma profundidade rara. O que mais me impressionou foi a honestidade emocional das personagens. Nem Marianne nem Tor parecem particularmente preocupados em corresponder às narrativas convencionais sobre amor, sexualidade ou compromisso. Procuram uma intimidade viva, fundada na presença, na liberdade e na capacidade de ver o outro sem o transformar em propriedade. O filme sugere que a ternura nasce da qualidade da atenção que damos ao momento, qualquer que seja a forma ou duração da relação.


Fiquei com a sensação de que muitos dos conflitos afectivos contemporâneos nascem da tentativa de encaixar a experiência humana em modelos que prometem segurança, mas que, frequentemente, sacrificam a verdade. No fundo, todas as personagens parecem procurar a mesma coisa. Ser vistas na sua singularidade, na sua humanidade concreta. Fica-me a ideia de que, por baixo das nossas narrativas, medos e escolhas, todos ambicionamos o mesmo: reconhecimento existencial genuíno e, se possível, um pouco de ternura.


 
 
 
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 31 de jul.

«Não é indiferença, obnubilação dos sentidos devida aos anos, como tinha desconfiado. É o domínio total das emoções e o conhecimento supremo de cada instante precioso que a vida nos concede como prémio, se tivermos pulso firme e coragem… Carmine, lento, sobe as escadas do Carmelo. Agora sei, velho, o sentido profundo da liberdade e da alegria que tiveste antes de morrer e já não te invejo, apoderei-me da tua arte e, a partir de hoje, ela será apenas alegria para mim.»

 

Na badana do livro de Goliarda Sapienza, está escrito: ‘livro que conquista e choca todos os que o lêem.’ A frase incomoda-me. O livro, nem por um segundo.


Não me senti incomodado, muito menos chocado. Acompanhou-me, como poucos livros o fizeram. Deu palavras a muito do que me atravessa e a que ainda não tinha conseguido dar forma. Ri, chorei, pensei, senti, vivi intensamente, sem sair do meu quarto, onde o li.


Cheguei ao fim e, apesar das 527 páginas, não queria que acabasse. Vai deixar saudades. Foi dos livros mais impactantes que li. Um dos mais importantes também. Só alguém absolutamente livre poderia tê-lo escrito.


‘A Arte da Alegria’ é uma obra-prima. Por todos os motivos e mais alguns, literários e humanos. Cala o intelectualismo e entrega a vida na sua dimensão mais profunda e genial, sem artifícios. Que pena, durante a vida da autora, a tenham tratado tão mal. O mundo raramente é justo, mas o tempo acaba sempre por fazer o seu trabalho. São páginas assim que alimentam a minha paixão pela literatura.


Obrigado, Goliarda. Onde quer que estejas.


 
 
 
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 27 de fev.

«Encaminhou-se para o elevador como se soubesse, e sabia, que a solidão não era um estado, mas uma condição, um lugar mais firme e mais fundo, o único no qual os pés encontravam chão. Cedia, mas era chão.»

 

Há romances que se fecham na narrativa. Matilde, de H. G. Cancela, fecha-se numa ideia. Ou talvez numa constatação ontológica. A solidão não surge como acidente emocional nem como consequência circunstancial da vida. Surge como território. Como fundação.

 

Ao terminar a leitura, uma palavra insistia em regressar. Invulnerabilidade.

 

As sociedades urbanas modernas construíram uma rede tão eficaz de suporte à existência que um indivíduo pode viver funcionalmente sem depender afectivamente de ninguém. Come-se, trabalha-se, desloca-se, paga-se contas, ocupa-se o tempo. Tudo funciona. Nada falta no plano material, desde que haja dinheiro. Não é preciso ser rico nem pobre, apenas ter o suficiente para uma suposta autonomia. O afecto deixou de ser necessidade para se tornar possibilidade. É nesse intervalo que o romance se instala.

 

A protagonista não é apresentada como vítima de um acontecimento extraordinário. A sua condição é banal, reconhecível, quase administrativa. Não possui rede familiar activa, não mantém relações amorosas duradouras, não cultiva amizades profundas. À sua volta existem colegas, vizinhos, presenças ocasionais que coexistem sem verdadeiro encontro. O gesto mais inquietante não reside apenas na ausência de vínculos. Surge no movimento duplo que o livro revela com precisão clínica. Ela não procura ninguém, mas também ninguém a procura.

 

Não há hostilidade aberta nem exclusão evidente. Apenas trajectórias paralelas. Cada um absorvido na própria sobrevivência quotidiana. O mundo actual permite, e talvez incentive, esta convivência sem ligação, onde olhar verdadeiramente para o outro deixou de ser necessidade colectiva. Aquilo que poderia parecer fragilidade individual revela-se antes um sinal do tempo.

 

Nada disto soa estranho ao leitor. Pelo contrário, é perturbadoramente familiar.

 

Ao acompanhar a personagem, começamos a formular as mesmas justificações que organizam a sua vida. Evitar encontros desgastantes. Desconfiar da intimidade fácil. Preservar o espaço pessoal. Preferir estar só a partilhar presença sem sentido. A certa altura, a pergunta deixa de ser sobre ela e passa a ser sobre nós. Onde termina a lucidez e começa o afastamento patológico? Em que momento a autoprotecção se transforma em clausura?

 

É aqui que Matilde se torna profundamente inquietante. Não pela excepcionalidade dos acontecimentos, mas pela sua verosimilhança emocional. O romance não empurra o leitor para o delírio. Convida-o a aproximar-se lentamente dele, sem perceber exactamente quando a fronteira foi atravessada.

 

A escrita acompanha esse movimento. A linguagem é económica, quase mecânica, composta por frases curtas, repetidas, depuradas até ao essencial, sujeito e complemento. O autor parece colocá-la ao serviço da narrativa mais do que usá-la como afirmação estilística. Essa escolha revela-se coerente com o universo do romance e, de certa forma, ética. A escrita recusa ornamentar aquilo que é vivido como funcional, repetitivo, quase automático. As anáforas criam um ritmo de rotina e compulsão, como se a própria frase obedecesse à vida que descreve. A forma não comenta o afastamento humano. Habita-o.

 

O romance constata uma solidão fundamental. A protagonista revela-a em cada acção. O afecto, que poderia ser a única forma de mitigá-la, não existe ou surge idealizado. A clausura existencial instala-se. A independência funcional confunde-se com liberdade, e o isolamento descamba em patologia e delírio. Parece-me o diagnóstico do livro. A invulnerabilidade torna-se, portanto, um modelo de vida. O preço dessa escolha é uma existência aparentemente segura, organizada, mas progressivamente desumanizada.

 

A frase final permanece depois do livro fechado. A solidão como chão. Como lugar firme. Como fundação. Não discordo, é condição. Mas o autor desloca-nos a consciência para uma pergunta silenciosa: Se já não precisamos uns dos outros para viver, o que restará de humano quando deixarmos de nos procurar?

 

Foi o primeiro livro que li de H. G. Cancela. Suspeito que não será o último. Há ficções que inventam mundos. Outras limitam-se a mostrar o nosso com uma nitidez desconcertante. Matilde pertence claramente à segunda categoria.


 
 
 
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