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Foto do escritor: Vítor Leal Barros
Vítor Leal Barros
25 de ago.

No posfácio à edição portuguesa de Niels Lyhne, Claudio Magris aproxima a melancolia de Niels do tédio de Oblomov. «Ambos os romances nascem da percepção do exílio da vida verdadeira, da consciência de que ela está noutro lugar, fora do alcance do indivíduo que deveria vivê-la.» Esse exílio existe em Niels. Há, desde cedo, um desacordo entre a vida pressentida e a vida possível, e a distância entre ambas cresce à medida que o tempo avança.


Há uma melancolia funda em Niels Lyhne, mas não há niilismo. Deus vai desaparecendo da crença sem que o mundo se esvazie com Ele. A beleza permanece, o amor conserva a sua força, a natureza continua capaz de provocar uma experiência próxima da revelação. Mesmo quando a vida se afasta da forma como a imaginara, alguma coisa resiste ao desencantamento.


Niels herda da mãe a sensação de que a realidade dificilmente alcança a beleza que a imaginação foi capaz de pressentir. Antes de amar uma mulher concreta, ama uma ideia do amor. Antes de a experiência acontecer, já a antecipou e lhe deu forma. Por isso, num dos momentos decisivos do romance, revolta-se contra a própria tendência para «compor poemas à vida em vez de a viver». Deseja que a vida se abata sobre ele de tal modo que deixe de ser ele a fazer poesia com ela e passe a ser a própria vida a fazer poesia consigo.


A natureza oferece-lhe alguns vislumbres dessa possibilidade. Numa paisagem de Primavera, sente a profusão do mundo como se tudo procurasse «fundir-se misticamente num único grito». A palavra importa. Misticamente. Num romance atravessado pela perda da fé, a experiência conserva a estrutura de uma revelação. O sagrado emerge das próprias coisas. Por instantes, a matéria parece exceder a sua condição ordinária.


Deixar que a vida faça poesia connosco significa aceitá-la dentro do tempo. Tudo aquilo que se deixa viver também se deixa morrer. Jacobsen detém-se no que muda, a luz, a água, o gelo que se desfaz, as estações, as nuvens, as sombras. A beleza não existe apesar dessa transformação. Existe nela. Um instante pode ser pleno sem ser eterno.


É por isso que o ateísmo de Niels me parece menos simples do que uma recusa intelectual de Deus. A sua origem está numa ferida. Ainda criança, diante da doença de Edele, reza com a violência de quem acredita que a fé pode obrigar Deus a responder. Quando ela morre, Niels revolta-se. Deus falhou no momento em que mais precisava Dele.


Mais tarde, essa revolta torna-se convicção. Niels imagina um mundo em que a força, o amor e a esperança, durante séculos desviados para Deus, regressariam à terra. Contudo, deixa de acreditar religiosamente sem deixar de olhar religiosamente. Conserva o assombro perante a beleza, a necessidade de venerar, a capacidade de se entregar ao que reconhece como extraordinário.


É neste ponto que o romance mais me interessa. O sagrado não desaparece com Deus. Muda de lugar. Deixa de depender de uma entidade exterior ao mundo e passa a poder irromper da própria matéria da vida, de uma paisagem, de um corpo, do amor, de uma mudança da luz ou até do cheiro de uma casa.


A morte de Deus retira, porém, uma garantia essencial. Já não existe um lugar fora do tempo onde aquilo que desaparece possa ser conservado. Os mortos poderão não ser reencontrados, o amor não possui promessa de eternidade e nenhuma ordem superior assegura que o sofrimento tenha sentido. Niels libertou-se da crença, mas não da fome que a transcendência alimentava.


É esse o seu drama mais profundo. Deseja permanência num mundo submetido à transformação, unidade numa consciência em movimento e plenitude numa existência que não pode ser subtraída ao tempo.


Quase no fim, já ferido, diz a Hjerrild que «não foi de todo assim que sonhámos alcançar a plenitude». O sonho falhou, mas não foi desmentido. A plenitude continuou a ser a medida. A beleza não se tornou ilusão por ser transitória. O amor não valeu menos porque terminou.


Depois de Deus, resta a poesia para dar forma ao que o tempo condena a desaparecer. Um livro marcante, profundamente actual, quase século e meio depois.


 
 
 
Foto do escritor: Vítor Leal Barros
Vítor Leal Barros
31 de jul.

Vi Love, de Dag Johan Haugerud. Filme de uma simplicidade formal aparente, construído quase só por diálogos. De uma profundidade rara. O que mais me impressionou foi a honestidade emocional das personagens. Nem Marianne nem Tor parecem particularmente preocupados em corresponder às narrativas convencionais sobre amor, sexualidade ou compromisso. Procuram uma intimidade viva, fundada na presença, na liberdade e na capacidade de ver o outro sem o transformar em propriedade. O filme sugere que a ternura nasce da qualidade da atenção que damos ao momento, qualquer que seja a forma ou duração da relação.


Fiquei com a sensação de que muitos dos conflitos afectivos contemporâneos nascem da tentativa de encaixar a experiência humana em modelos que prometem segurança, mas que, frequentemente, sacrificam a verdade. No fundo, todas as personagens parecem procurar a mesma coisa. Ser vistas na sua singularidade, na sua humanidade concreta. Fica-me a ideia de que, por baixo das nossas narrativas, medos e escolhas, todos ambicionamos o mesmo: reconhecimento existencial genuíno e, se possível, um pouco de ternura.


 
 
 
Foto do escritor: Vítor Leal Barros
Vítor Leal Barros
31 de jul.

«Não é indiferença, obnubilação dos sentidos devida aos anos, como tinha desconfiado. É o domínio total das emoções e o conhecimento supremo de cada instante precioso que a vida nos concede como prémio, se tivermos pulso firme e coragem… Carmine, lento, sobe as escadas do Carmelo. Agora sei, velho, o sentido profundo da liberdade e da alegria que tiveste antes de morrer e já não te invejo, apoderei-me da tua arte e, a partir de hoje, ela será apenas alegria para mim.»

 

Na badana do livro de Goliarda Sapienza, está escrito: ‘livro que conquista e choca todos os que o lêem.’ A frase incomoda-me. O livro, nem por um segundo.


Não me senti incomodado, muito menos chocado. Acompanhou-me, como poucos livros o fizeram. Deu palavras a muito do que me atravessa e a que ainda não tinha conseguido dar forma. Ri, chorei, pensei, senti, vivi intensamente, sem sair do meu quarto, onde o li.


Cheguei ao fim e, apesar das 527 páginas, não queria que acabasse. Vai deixar saudades. Foi dos livros mais impactantes que li. Um dos mais importantes também. Só alguém absolutamente livre poderia tê-lo escrito.


‘A Arte da Alegria’ é uma obra-prima. Por todos os motivos e mais alguns, literários e humanos. Cala o intelectualismo e entrega a vida na sua dimensão mais profunda e genial, sem artifícios. Que pena, durante a vida da autora, a tenham tratado tão mal. O mundo raramente é justo, mas o tempo acaba sempre por fazer o seu trabalho. São páginas assim que alimentam a minha paixão pela literatura.


Obrigado, Goliarda. Onde quer que estejas.


 
 
 
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