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Foto do escritor: Vítor Leal Barros
Vítor Leal Barros
6 de out.
Fotograma de NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor. Fonte: The Guardian.
Fotograma de NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor. Fonte: The Guardian.

Vi Naza, dos jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. As lágrimas vieram-me ao rosto, a raiva também. Deixei que pousassem antes de começar a escrever, porque há que pensar para lá do soco e do drama. Tenho consciência de que pouco acrescentarei ao muito que já se disse sobre o filme e sobre Gaza. Este texto nasce de um impulso ético pessoal. Sinto-me no direito e no dever de o respeitar.


Naza é filmado à noite, num terraço, na serenidade iluminada dos edifícios de Telavive. A cidade repousa sem sobressaltos, indiferente ao que está a ser dito e ao que acontece a sessenta quilómetros de distância. Os entrevistados pertencem a várias divisões e serviços do exército israelita, mas não lhes vemos os rostos. São silhuetas. As vozes foram alteradas digitalmente, informa a primeira legenda. Temem ser perseguidos, talvez mortos, pelo mesmo sistema em que participaram e que ajudaram a construir. Antes de começar verdadeiramente, o documentário já disse quase tudo. A verdade, para ser ouvida, aparece já mutilada, sem nomes, sem rostos e sem vozes próprias. Tudo o que começa a ser revelado faz parte de uma «empresa».


Esclareço desde já três questões. Condeno sem reservas o ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, durante o qual foram assassinadas centenas de pessoas e aprisionados reféns, usados depois como moeda de troca. Nada do que escreverei relativiza ou desculpa esses crimes. Israel designa aqui o Estado, o seu governo e o aparelho político-militar responsável pela condução da guerra. O povo israelita (judeu, muçulmano, cristão ou de qualquer outra confissão) fica fora dessa designação. A aproximação de «Naza» a outros processos históricos de nomeação e desumanização limita-se a um mecanismo linguístico: retirar à vítima o nome, o rosto e a sua humanidade para a converter numa categoria administrável. Não estabelece uma equivalência total entre acontecimentos nem atribui uma culpa colectiva aos judeus.


O ataque do Hamas foi o gatilho de uma máquina já existente, preparada ao longo de anos, talvez décadas. As imagens de oficiais israelitas a aprender árabe nos anos 70 não aparecem por acaso. Há conhecimento acumulado, doutrina, treino, instituições, vigilância e uma capacidade operacional progressivamente aperfeiçoada. A língua do outro, que poderia ser um lugar de encontro, foi incorporada numa estrutura de domínio.


Chamo-lhe «empresa» por tudo o que a palavra contém: organização, especialização, divisão de tarefas, tecnologia, administração, produtividade, objectivos e resultados. Está muito para lá da startup inventiva que tenta penetrar no mercado. É uma empresa madura, instalada no topo da tecnologia de guerra mundial. Produz levantamentos rigorosos e permanentes do edificado de Gaza; cruza imagens de satélite e de drones, sinais de telecomunicações, escutas, movimentos, moradas e relações familiares. Segundo os depoimentos recolhidos no filme, recorre a sistemas de inteligência artificial e a programas capazes de seleccionar alvos, gerir informação e optimizar ataques. O armamento é apenas a extremidade visível. Antes da bomba, há dados e mapas precisos, informação actualizada ao segundo, engenheiros especializados e uma cadeia de decisões que escolhe onde ela cairá.


O mais perturbador é a motivação daqueles indivíduos. Muitos procuram a excelência naquilo que fazem com o mesmo empenho que teriam numa gigante tecnológica, tipo Google ou Meta. Querem resolver problemas, melhorar resultados, aumentar a precisão, superar as conquistas anteriores. São engenheiros e técnicos especializados, distantes da imagem do soldado de força bruta, executante indiferenciado, mera carne para canhão. Concebem sistemas complexos e antecipam as consequências operacionais das suas decisões. A inteligência técnica aplicada à guerra atingiu um grau extraordinário de sofisticação. Tragicamente, o desajuste da consciência moral parece crescer na mesma proporção.


Um deles diz, em substância, que quem mata é a bomba; ele limita-se a optimizar o lugar onde ela deve cair. A frase é perfeita no que revela. A causalidade física é atribuída à bomba, como se o objecto tivesse vontade própria; a causalidade humana dissolve-se no verbo optimizar. O eufemismo é cínico e perverso. A inteligência permanece confinada à técnica, separada da responsabilidade moral. Sabem calcular as consequências e excluem do cálculo as vidas sacrificadas e o significado humano do seu extermínio.


É neste contexto que surge a palavra «Naza». Outro dos entrevistados trabalhava no mapeamento dos edifícios do norte de Gaza. Sabia quantas pessoas estavam num prédio, onde viviam, quem entrava e saía, se existia ali um membro do Hamas ou alguém que o tivesse sido no passado, quantas mulheres, crianças, idosos ou doentes se encontravam entre paredes. O conhecimento era suficientemente preciso para impedir a desculpa da ignorância. Antes de a bomba cair, as suas mortes já tinham sido previstas, contabilizadas e aceites. O perverso é que essas baixas já não figuravam como pessoas. Eram «Naza». Deixavam de ser homens, mulheres e crianças. A designação destituía-as da sua humanidade. Passavam a ser uma variável operacional, uma percentagem tolerada, quase a pontuação de um videojogo. Aliás, a metáfora do videojogo prolifera nos relatos. Dizer «criança» poderia provocar empatia ou uma crise de consciência. Dizer «Naza» permitia prosseguir o trabalho sem remorso. A palavra não se limita a descrever as vítimas; torna possível administrá-las.


Há uma ironia histórica insuportável nisto. Num Estado cuja identidade está profundamente moldada pela memória do Holocausto, um aparelho militar recorre a uma categoria burocrática para apagar a humanidade de outro povo. A aproximação a «Juden» limita-se a esse mecanismo: transformar pessoas singulares numa categoria sobre a qual se pode agir. A desumanização começa muitas vezes aí, quando o nome próprio desaparece e a consciência aprende a lidar com uma abstracção. Dentro da engrenagem, uma pessoa deixa de ter nome e passa a existir apenas como «Juden» ou «Naza».


O filme descreve uma regra: segundo um dos entrevistados, por cada homem suspeito de pertencer ao Hamas podiam ser admitidos, vulgo mortos, até 25 «Naza». O número era estabelecido antes do ataque, como margem aceitável de mortes civis. Suponha-se que esses 25 civis fossem cinco famílias de cinco pessoas. Pais, mães, filhos, irmãos, avós. A presença de um único suposto alvo bastava para que o ataque pudesse avançar. Na contabilidade da «empresa», um suspeito tornava sacrificáveis vinte e cinco pessoas. Sabiam que estavam lá.


O jornalista pergunta o que ouviam nas escutas. Nada de especial, respondem. A vida do dia-a-dia: conversas, televisões ligadas, discussões, choros de crianças. Depois dos bombardeamentos, ouviam pessoas à procura umas das outras, a tentarem localizar os seus, alguém a dizer que o pai ou o tio tinha morrido. A categoria dizia «Naza»; a escuta devolvia filhos, pais, mães, avós, famílias concretas. Que gente perigosa era esta? Pergunto de novo: que gente perigosa era esta que o Estado decidia liquidar com bombas?


Alguns dos entrevistados são confrontados com o que os drones registaram: corpos abandonados a servir de alimento aos cães, pessoas desesperadas por comida, bairros demolidos e incendiados. Surge a pergunta inevitável: quando viam, ouviam e sabiam de tudo isto, o que pensavam? As respostas regressam à «empresa»: era o meu trabalho; foi o Hamas que provocou isto; as ordens eram de empurrar os palestinianos para sul; era necessário apagar tudo para que ninguém quisesse voltar. Um deles, apenas um, reconhece a existência de um genocídio. E chora. Outros recordam a alegria quando um objectivo era atingido: a confraternização, a sensação de sucesso, o divertimento. Um deles diz que terminava o trabalho e ia beber um copo com os amigos.


Por onde andava a consciência destes indivíduos? Apagava-se?


Talvez não se apagasse. Talvez se dividisse, se restringisse, se anestesiasse. A pessoa conserva-a em casa, ama os filhos, preocupa-se com os amigos, ri, bebe, vive uma existência comum e banal. Depois entra no trabalho e deixa de perceber a mesma humanidade naqueles que aparecem no ecrã. A tarefa é fragmentada, a responsabilidade sobe pela cadeia de comando, a linguagem técnica substitui os corpos, a distância material elimina o rosto, a repetição transforma o intolerável em rotina e a aprovação do grupo funciona como confirmação moral.


A pergunta deixa de ser «devo fazer isto?» e passa a ser «executei bem aquilo que me pediram?». Um localiza. Outro calcula. Outro autoriza. Outro carrega. Outro dispara. Ninguém se considera assassino da criança morta, embora a criança morra através de todos.


Hannah Arendt explicou este mecanismo como poucos. A «banalidade do mal» descreve a possibilidade de actos monstruosos serem praticados através da rotina, da linguagem administrativa, do conformismo e da suspensão do julgamento próprio. A expressão nada diz sobre a dimensão ou a gravidade do mal, nem pressupõe executores estúpidos. A obediência explica. Não absolve. A função pergunta se o trabalho foi bem executado. A consciência perguntaria se deveria ter sido executado.


Maquiavel pode ajudar-nos a compreender a cabeça de quem projecta o poder. La Boétie, aqueles que lhe prestam obediência. Arendt, a máquina em que cada um executa apenas a sua parcela. Nenhum deles, porém, preenche o abismo que se abre: o que teve de morrer dentro de uma pessoa para que ela pudesse ouvir o choro de uma criança, calcular onde cairia a bomba e sair depois para beber com os amigos? Ultrapassa-me. É-me incompreensível. Por mais voltas que dê à cabeça, não entendo.


Netanyahu não constrói sozinho uma «empresa» de morte. Nenhum dirigente histórico construiu sozinho a sua máquina. Um sistema desta sofisticação precisa de instituições, cadeias de comando, engenheiros, militares, funcionários e milhares de actos apresentados como trabalho normal. As narrativas são a verdadeira monstruosidade: defesa, inevitabilidade, segurança, culpa absoluta do inimigo, ausência de alternativa, supremacia nacional, legitimação religiosa do domínio territorial. Quanto mais polarizam, mais reconhecível se torna o inimigo; quanto mais o nomeiam, mais fácil se torna agir contra ele. Transformam escolhas políticas e morais em necessidades técnicas. O sistema não precisa de apagar todas as consciências. Basta ensinar cada consciência a olhar apenas para a sua parcela. Basta prometer-lhe que a história, a pátria ou Deus justificará o resto.


Não compreendo nenhum genocídio. Não compreendi Auschwitz quando o visitei. Não o compreendi ao ler Primo Levi nem ao ver A Lista de Schindler. Não o compreendi nos livros de história. Posso estudar os mecanismos, a propaganda, o medo, a obediência, o cálculo e a dispersão da responsabilidade. Consigo descrever como se constrói a máquina. Continuo sem compreender como um ser humano vê outro ser humano (uma criança, uma mulher mutilada, um homem desesperado por comida) e prossegue ou mata. A crueldade é própria do humano, já dizia Saramago. A este grau, o meu entendimento não chega.


Escrevi em Hotel La Solitude: «Há nos humanos uma raiz insubordinada, promíscua, rasto e alimento de erva daninha, semente criada em modo sobrevivente que milénios de evolução da inteligência não extinguiram.» Continuo a pensar o mesmo. Naza mostra que a inteligência não venceu essa raiz. Deu-lhe satélites, drones, inteligência artificial, sistemas de escuta e uma capacidade industrial de destruição. Tornámo-nos extraordinariamente competentes sem nos tornarmos necessariamente melhores.


Não há justiça no mundo como lei natural. A história não possui um mecanismo moral que acabe por recompensar os inocentes e castigar os culpados. A justiça só existe quando os humanos a constroem, precariamente, contra a força, o medo e a erva daninha. Quando digo que os responsáveis têm de pagar, exijo responsabilização judicial e rejeito qualquer violência, ódio ou vingança. Mas digo-o sem eufemismo: têm de sentar o cu em Haia. Governantes, dirigentes, cadeias de comando, executores e cúmplices têm de responder, com provas e segundo o grau da sua participação, pelos milhares de pessoas inocentes mortas por decisões que foram humanas antes de se tornarem técnicas.


O documentário termina com imagens de Gaza transformada num cenário onde parece não restar pedra sobre pedra, Sodoma e Gomorra depois da ordem de Deus. Um pai procura a mulher e os filhos debaixo dos escombros. Chama-os pelos nomes entre o betão e os corpos entalados, mas ninguém responde. De repente, em desespero, revolta-se contra o filho morto: «Não te disse para cuidares da tua irmã? Porque não me ouviste?»


Essa acusação é o cúmulo da dor. O homem já não consegue localizar a origem do sofrimento nem atingir quem o provocou. A mente procura alguém próximo a quem ainda possa falar e encontra o próprio filho, também ele vítima. O pai tenta reconstruir por instantes a ordem familiar desaparecida: pai que protege o filho, filho que protege a irmã. Essa ordem foi esmagada juntamente com a casa. A dor perdeu o endereço. No meio dos escombros, o homem chama por «Salmah». Um nome próprio diante de uma «empresa» que só conhecia «Naza».


Antes destas imagens finais, o filme recupera uma entrevista de 1986 em que Benjamin Netanyahu define terrorismo: «A minha definição de terrorismo é o ataque sistemático e deliberado: o assassínio, a mutilação e a intimidação de inocentes, de civis, com objectivos políticos.»


Ele próprio saberia definir-se.

 
 
 
Foto do escritor: Vítor Leal Barros
Vítor Leal Barros
6 de out.

No passado dia 3 de outubro, pelas 15h30, apresentei O Naipe em Falta na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.


Estava uma tarde bonita e solarenga. O encontro foi intimista, atento e muito participado. Não enchemos o auditório, mas enchemos a conversa.


Falámos de literatura, das personagens que se recusam a abandonar o autor e de uma das perguntas que atravessam o livro: quanto de nós é herança e quanto é escolha? Tudo aconteceu de forma confortável e fluida.


Agradeço ao Manuel pela bonita introdução; à Dra. Aida, à Dra. Maria e a toda a equipa da Biblioteca, pela forma sempre gentil como me recebem; e a todos os que estiveram presentes, pela escuta, pelas perguntas e pela conversa.


Há encontros que permanecem pela dimensão. Este ficará pela proximidade.

 
 
 
Foto do escritor: Vítor Leal Barros
Vítor Leal Barros
28 de set.

Há meses que andava com este livro nas mãos. Nunca tal me aconteceu. Ou abandono e sigo para outro, ou resisto e só o leio anos mais tarde. Com Malina, de Ingeborg Bachmann, foi diferente. O livro interessa-me, a voz interessa-me, mesmo quando me exigem coisas que por vezes não consigo dar. Fez-me sentir sono, irritação, fascínio, vontade de o fechar e de voltar a abri-lo.


Bachmann lembra-me uma amiga minha, também ela genial e muito querida. Admiro-lhe a inteligência, embora a intensidade por vezes me esgote. Clarice Lispector, por exemplo, possui uma intensidade semelhante, mas o pensamento é ondulante, abre respiros. Bachmann escreve por chicotadas. A sua escrita é uma centrifugadora que nos arrasta enquanto nos tritura.


A narradora foi a principal razão do cansaço. A consciência é acutilante, mas os saltos entre impulsos contrários fazem-na parecer, por vezes, uma tonta que não sabe o que quer. Basta esta cena: entra num restaurante com Malina, rejeita a mesa e a comida que habitualmente aprecia, lembra-se de Ivan, quer sair, sente culpa, decide regressar e retomar o jantar por ele, quando Malina já nem sabe se deseja continuar. Pouco depois, vê a sua cabeça rolar sobre o prato. Sangue por todos os lados. Surge perdida na própria rua, imagina uma história a partir da vizinha com quem se cruza, chega a casa, deita-se no chão, ouve Malina ordenar «Mata-o» e salta para a recordação de um tipo que conheceu no Instituto de Psicologia que lhe pergunta com quantos homens se deitou. Tudo isto em quatro páginas. A sucessão vertiginosa é quase regra ao longo do livro. Por vezes, seduzia-me; noutras, afastava-me, incapaz ou cansado demais para acompanhá-la. No final, percebe-se porquê. Esta mulher procura construir um «eu» morto à nascença. Um «eu» feminino, uma identidade para a qual nunca houve lugar. Como ela observa, esta «sociedade é o maior de todos os cenários de crime».


Ivan representa a beleza, a única beleza, como ela própria diz. Representa também a banalidade confortável de quem exige do outro aquilo que jamais terá de suportar. Elfriede Jelinek conta no posfácio que Bachmann considerava a maioria das pessoas semelhantes a Ivan. Ele diz à amante que deve ser feliz enquanto ela se despedaça para conseguir voltar a aproximar-se dele. E di-lo enquanto come salsichas. A violência nasce da desproporção. Para Ivan, a felicidade é uma recomendação proferida durante uma refeição; para ela, tornou-se uma tarefa impossível da qual depende um amor que nunca conheceu linguagem no feminino. Cada esforço para corresponder ao desejo dele aproxima-a do desaparecimento.


Malina oferece-lhe a segurança que falta em Ivan. Ela admira-o e inveja a sua capacidade de dispensar justificações, promessas e explicações. Ele diz sempre a palavra certa, ninguém o interroga, nenhuma manipulação parece alcançá-lo. A sua suposta segurança vem do lugar que já ocupa. As regras do mundo falam através dele, simplesmente por ser homem. Não será por acaso que o título do romance tem o seu nome. Sempre que ela tenta desafiá-lo, surge uma resposta racional pronta, como se a sociedade respondesse pela boca de Malina. A narradora hesita, contradiz-se, sente várias coisas ao mesmo tempo. Malina domina a linguagem reconhecida como coerente.


Ao longo do livro, lia-os cada vez mais como projecções interiores dela. Ivan concentrava o desejo inalcançável e Malina, a razão que lhe permitia sobreviver ao mesmo tempo que a tornava prisioneira. No decorrer da narrativa, a razão torna-se canibal e devora a identidade da mulher até ocupar, sozinha, o eixo central.


A segunda parte, dominada pela figura do pai, levou-me ao limite da leitura. As imagens tornam-se progressivamente mais violentas e circulam dentro de uma atmosfera claustrofóbica. Cheguei a um ponto em que já mal assimilava a violência. A leitura transformou-se num massacre psicológico, seguido por um profundo desinteresse que várias vezes me fez adormecer. A coerência do mecanismo convive com o meu afastamento. A figura do pai contém uma dimensão biográfica e amplia-se até se tornar o superego de uma sociedade inteira. A mãe transforma-se por vezes no pai, ao ponto de a narradora já não distinguir um do outro. É a mulher que aprendeu a sobreviver integrando os códigos masculinos e os transmite à filha com um zelo capaz de ultrapassar o do próprio homem. O poder tornou-se impessoal. Qualquer pessoa pode reproduzi-lo, porque as suas regras antecedem quem as aplica.


O final do livro reorganizou a minha leitura. «Foi assassínio», diz a narradora. O crime acontece dentro do lar, nas paredes antigas e muito fortes, como ela as descreve, nas nesgas onde as mulheres procuram sobreviver, submetidas desde o início a regras que lhes dizem até aquilo que devem sentir. A narradora desaparece numa fenda da parede e Malina recebe o vestígio com a mesma serenidade com que observa as manchas sobre os radiadores. A casa, espaço histórica e simbolicamente atribuído à mulher, absorve-a e continua habitável. Em vez de um quarto só seu, como o de Virginia Woolf, resta-lhe um intervalo minúsculo na parede, uma fenda sem nome onde se completa a ruptura do âmago. O homem é a norma, a mulher é o outro remetido aos interstícios. A acusação da frase final revela que o desaparecimento começou muito antes, quando a possibilidade do «eu» feminino foi excluída da história e da narrativa oficial. Toda a dramatização da protagonista, por vezes enredada até à exaustão do leitor, é um mecanismo para tornar sensível a agonia de um «eu» impossibilitado de encontrar forma.


Escolho Malina como leitura do mês pela experiência que me proporcionou. Deu-me luta durante meses. Cansou-me, irritou-me, adormeceu-me, fez-me rir e fazer figura de parvo em público. Obrigou-me a voltar e, no fim, a ver com olhos de ver. O meu exemplar está carregado de sublinhados e notas. A inteligência de Bachmann nunca me foi indiferente, mesmo quando a intensidade da escrita me afastava. O final iluminou o percurso sem corrigir a leitura intermitente que fui fazendo. Fechei o livro com alívio, mas com a compreensão expandida.


Malina ficará pela resistência que me exigiu e por aquilo que me obrigou a reconhecer. Nunca me tinha ocorrido que as mulheres nascem já condenadas pela linguagem. Bachmann tornou-o evidente. Enquanto homem, sou responsável e cúmplice de um sistema que me favorece, ao mesmo tempo que continua a abrir fendas e a empurrar mulheres para dentro delas. As conquistas alcançadas desde o pós-guerra do século XX não estão garantidas. Os extremismos do nosso tempo querem restaurar a velha ordem e voltar a emparedar as mulheres na casa, na obediência e no silêncio. Como Bachmann escreve, «É uma parede muito antiga, muito forte, de onde ninguém pode cair, que ninguém pode romper, de onde nunca mais se poderá ouvir nada.»


 
 
 
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