Leitura do Mês
- Vítor Leal Barros

- 27 de fev.
- 3 min de leitura

«Encaminhou-se para o elevador como se soubesse, e sabia, que a solidão não era um estado, mas uma condição, um lugar mais firme e mais fundo, o único no qual os pés encontravam chão. Cedia, mas era chão.»
Há romances que se fecham na narrativa. Matilde, de H. G. Cancela, fecha-se numa ideia. Ou talvez numa constatação ontológica. A solidão não surge como acidente emocional nem como consequência circunstancial da vida. Surge como território. Como fundação.
Ao terminar a leitura, uma palavra insistia em regressar. Invulnerabilidade.
As sociedades urbanas modernas construíram uma rede tão eficaz de suporte à existência que um indivíduo pode viver funcionalmente sem depender afectivamente de ninguém. Come-se, trabalha-se, desloca-se, paga-se contas, ocupa-se o tempo. Tudo funciona. Nada falta no plano material, desde que haja dinheiro. Não é preciso ser rico nem pobre, apenas ter o suficiente para uma suposta autonomia. O afecto deixou de ser necessidade para se tornar possibilidade. É nesse intervalo que o romance se instala.
A protagonista não é apresentada como vítima de um acontecimento extraordinário. A sua condição é banal, reconhecível, quase administrativa. Não possui rede familiar activa, não mantém relações amorosas duradouras, não cultiva amizades profundas. À sua volta existem colegas, vizinhos, presenças ocasionais que coexistem sem verdadeiro encontro. O gesto mais inquietante não reside apenas na ausência de vínculos. Surge no movimento duplo que o livro revela com precisão clínica. Ela não procura ninguém, mas também ninguém a procura.
Não há hostilidade aberta nem exclusão evidente. Apenas trajectórias paralelas. Cada um absorvido na própria sobrevivência quotidiana. O mundo actual permite, e talvez incentive, esta convivência sem ligação, onde olhar verdadeiramente para o outro deixou de ser necessidade colectiva. Aquilo que poderia parecer fragilidade individual revela-se antes um sinal do tempo.
Nada disto soa estranho ao leitor. Pelo contrário, é perturbadoramente familiar.
Ao acompanhar a personagem, começamos a formular as mesmas justificações que organizam a sua vida. Evitar encontros desgastantes. Desconfiar da intimidade fácil. Preservar o espaço pessoal. Preferir estar só a partilhar presença sem sentido. A certa altura, a pergunta deixa de ser sobre ela e passa a ser sobre nós. Onde termina a lucidez e começa o afastamento patológico? Em que momento a autoprotecção se transforma em clausura?
É aqui que Matilde se torna profundamente inquietante. Não pela excepcionalidade dos acontecimentos, mas pela sua verosimilhança emocional. O romance não empurra o leitor para o delírio. Convida-o a aproximar-se lentamente dele, sem perceber exactamente quando a fronteira foi atravessada.
A escrita acompanha esse movimento. A linguagem é económica, quase mecânica, composta por frases curtas, repetidas, depuradas até ao essencial, sujeito e complemento. O autor parece colocá-la ao serviço da narrativa mais do que usá-la como afirmação estilística. Essa escolha revela-se coerente com o universo do romance e, de certa forma, ética. A escrita recusa ornamentar aquilo que é vivido como funcional, repetitivo, quase automático. As anáforas criam um ritmo de rotina e compulsão, como se a própria frase obedecesse à vida que descreve. A forma não comenta o afastamento humano. Habita-o.
O romance constata uma solidão fundamental. A protagonista revela-a em cada acção. O afecto, que poderia ser a única forma de mitigá-la, não existe ou surge idealizado. A clausura existencial instala-se. A independência funcional confunde-se com liberdade, e o isolamento descamba em patologia e delírio. Parece-me o diagnóstico do livro. A invulnerabilidade torna-se, portanto, um modelo de vida. O preço dessa escolha é uma existência aparentemente segura, organizada, mas progressivamente desumanizada.
A frase final permanece depois do livro fechado. A solidão como chão. Como lugar firme. Como fundação. Não discordo, é condição. Mas o autor desloca-nos a consciência para uma pergunta silenciosa: Se já não precisamos uns dos outros para viver, o que restará de humano quando deixarmos de nos procurar?
Foi o primeiro livro que li de H. G. Cancela. Suspeito que não será o último. Há ficções que inventam mundos. Outras limitam-se a mostrar o nosso com uma nitidez desconcertante. Matilde pertence claramente à segunda categoria.
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