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Leitura do Mês

  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • há 49 minutos
  • 3 min de leitura


Kudos é o último volume da trilogia de Rachel Cusk, iniciada com Outline e continuada em Transit. Optei por começar pelo fim, e há nisso um gesto deliberado: conhecer Faye pelo término, ou melhor, não a conhecer de todo. Apesar de narradora, o sujeito é continuamente deslocado, quase dissolvido. Esse apagamento não é efeito colateral, é o núcleo do projecto. Ler Kudos primeiro permite perceber com clareza a radicalidade da narrativa, uma escrita onde o eu se retrai, recusa poder, e escuta.


Ao longo do livro, Faye atravessa conversas, encontros, deslocações, conferências, jantares, praias. Nada se fixa. Fala sempre pouco de si. Há momentos em que parece que o fará, mas algo inesperado se sobrepõe. Mesmo quem a entrevista projecta a própria narrativa, confessa-se, emite opinião, procura validação. Faye, por sua vez, parece muitas vezes invisível aos outros, um corpo presente mas descentrado, absorvendo sem se impor. O narrador existe sobretudo como superfície de recepção. Esse descentramento cria um espaço estranho, quase desconfortável, onde a literatura abdica do que tradicionalmente se espera: interioridade, arco narrativo, resolução. E no entanto, os olhos dificilmente se distraem das páginas.


Outro apagamento importante é o da geografia. Os lugares são difusos, intercambiáveis. Durante grande parte do livro, a acção parece situar-se em qualquer cidade do norte ou centro da Europa, ou num espaço urbano abstracto. No final, pequenos indícios sugerem Lisboa, mas o território nunca se fixa. Há algo, a certa altura, que quase revela a saudade sem nomeá-la. Este esbatimento do espaço reflecte a contemporaneidade. Vivemos num mundo em que os lugares perderam densidade simbólica, tornaram-se transitórios, funcionais, provisórios. Nada se enraíza, tudo é líquido, como diagnosticou Bauman. Relações, discursos e identidades surgem e dissipam-se com a mesma rapidez. Kudos regista este estado de deslocamento sem dramatização. Não há lamento nem cinismo, apenas observação. É aí que o livro se torna político. A escuta surge como único meio de resistência ao ruído, à opinião fácil, à necessidade de afirmação. Escutar, no caso de Faye, não é empatia nem reconciliação. É uma forma de sobreviver ao mundo enquanto sujeito.


O final de Kudos devolve-nos à crueza do que Cusk observa. Na praia, Faye presencia um homem robusto, barbado, que urina no mar onde ela se banha, olhando-a com prazer. Ele não se questiona se exerce poder e esse é precisamente o problema. O gesto é simultaneamente escatológico e simbólico: afirma um tipo de masculinidade, marca território, mas não pede autorização nem dialoga. Faye não intervém. Todo o livro constrói a noção de que a intervenção verbal já falhou. Não há discurso que resolva a situação. Há apenas tempo, corpo e o limite possível. Ela permanece na água, consciente, esperando que o gesto se esgote, observando o poder bruto existir e exaurir-se por si mesmo. Esta cena sintetiza o que Cusk tão habilmente capta: deslocamento, exposição, limitação do discurso e sobrevivência do corpo como testemunha e resistência. O homem age sem questionar o poder que manifesta, e é essa inconsciência que revela a força do gesto.


A cena é literariamente poderosa porque permite múltiplas leituras: poder masculino, política do espaço, limites do corpo, do outro, silêncio e observação como únicas respostas. Faye não julga nem intervém. Permanece apenas consciente de si e do outro. Observar torna-se, paradoxalmente, um acto de soberania e resistência. A linguagem já não funciona, está saturada de sentidos, já não denuncia, ou talvez a autora tenha percebido a violência intrínseca à natureza do discurso, seja ele qual for.


Toda a interpretação aqui apresentada não pretende fixar nem esgotar a literatura de Cusk. A força da narrativa reside na ambiguidade, no desconforto e na sensação imediata que provoca no leitor. Cada leitura é uma extensão viva do projecto, e o espaço deixado entre as linhas é tão fundamental quanto aquilo que se descreve. Ignorá-lo seria trair a própria escrita da autora.


Rachel Cusk é uma das vozes contemporâneas que mais me fascina. Expõe o mundo actual com inteligência cortante, sem moralismos, percebendo os dramas e a sua complexidade, mostrando-os com clareza implacável. Kudos não oferece respostas fáceis nem conforto, mas algo mais raro: percepção, densidade e uma escuta resistente ao cinismo. Fá-lo com assertividade e humor, sem resvalar na ironia fácil.


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