Leitura do Mês
- Vítor Leal Barros

- 31 de jul.
- 1 min de leitura

«Não é indiferença, obnubilação dos sentidos devida aos anos, como tinha desconfiado. É o domínio total das emoções e o conhecimento supremo de cada instante precioso que a vida nos concede como prémio, se tivermos pulso firme e coragem… Carmine, lento, sobe as escadas do Carmelo. Agora sei, velho, o sentido profundo da liberdade e da alegria que tiveste antes de morrer e já não te invejo, apoderei-me da tua arte e, a partir de hoje, ela será apenas alegria para mim.»
Na badana do livro de Goliarda Sapienza, está escrito: ‘livro que conquista e choca todos os que o lêem.’ A frase incomoda-me. O livro, nem por um segundo.
Não me senti incomodado, muito menos chocado. Acompanhou-me, como poucos livros o fizeram. Deu palavras a muito do que me atravessa e a que ainda não tinha conseguido dar forma. Ri, chorei, pensei, senti, vivi intensamente, sem sair do meu quarto, onde o li.
Cheguei ao fim e, apesar das 527 páginas, não queria que acabasse. Vai deixar saudades. Foi dos livros mais impactantes que li. Um dos mais importantes também. Só alguém absolutamente livre poderia tê-lo escrito.
‘A Arte da Alegria’ é uma obra-prima. Por todos os motivos e mais alguns, literários e humanos. Cala o intelectualismo e entrega a vida na sua dimensão mais profunda e genial, sem artifícios. Que pena, durante a vida da autora, a tenham tratado tão mal. O mundo raramente é justo, mas o tempo acaba sempre por fazer o seu trabalho. São páginas assim que alimentam a minha paixão pela literatura.
Obrigado, Goliarda. Onde quer que estejas.
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