Leitura do mês


No posfácio à edição portuguesa de Niels Lyhne, Claudio Magris aproxima a melancolia de Niels do tédio de Oblomov. «Ambos os romances nascem da percepção do exílio da vida verdadeira, da consciência de que ela está noutro lugar, fora do alcance do indivíduo que deveria vivê-la.» Esse exílio existe em Niels. Há, desde cedo, um desacordo entre a vida pressentida e a vida possível, e a distância entre ambas cresce à medida que o tempo avança.
Há uma melancolia funda em Niels Lyhne, mas não há niilismo. Deus vai desaparecendo da crença sem que o mundo se esvazie com Ele. A beleza permanece, o amor conserva a sua força, a natureza continua capaz de provocar uma experiência próxima da revelação. Mesmo quando a vida se afasta da forma como a imaginara, alguma coisa resiste ao desencantamento.
Niels herda da mãe a sensação de que a realidade dificilmente alcança a beleza que a imaginação foi capaz de pressentir. Antes de amar uma mulher concreta, ama uma ideia do amor. Antes de a experiência acontecer, já a antecipou e lhe deu forma. Por isso, num dos momentos decisivos do romance, revolta-se contra a própria tendência para «compor poemas à vida em vez de a viver». Deseja que a vida se abata sobre ele de tal modo que deixe de ser ele a fazer poesia com ela e passe a ser a própria vida a fazer poesia consigo.
A natureza oferece-lhe alguns vislumbres dessa possibilidade. Numa paisagem de Primavera, sente a profusão do mundo como se tudo procurasse «fundir-se misticamente num único grito». A palavra importa. Misticamente. Num romance atravessado pela perda da fé, a experiência conserva a estrutura de uma revelação. O sagrado emerge das próprias coisas. Por instantes, a matéria parece exceder a sua condição ordinária.
Deixar que a vida faça poesia connosco significa aceitá-la dentro do tempo. Tudo aquilo que se deixa viver também se deixa morrer. Jacobsen detém-se no que muda, a luz, a água, o gelo que se desfaz, as estações, as nuvens, as sombras. A beleza não existe apesar dessa transformação. Existe nela. Um instante pode ser pleno sem ser eterno.
É por isso que o ateísmo de Niels me parece menos simples do que uma recusa intelectual de Deus. A sua origem está numa ferida. Ainda criança, diante da doença de Edele, reza com a violência de quem acredita que a fé pode obrigar Deus a responder. Quando ela morre, Niels revolta-se. Deus falhou no momento em que mais precisava Dele.
Mais tarde, essa revolta torna-se convicção. Niels imagina um mundo em que a força, o amor e a esperança, durante séculos desviados para Deus, regressariam à terra. Contudo, deixa de acreditar religiosamente sem deixar de olhar religiosamente. Conserva o assombro perante a beleza, a necessidade de venerar, a capacidade de se entregar ao que reconhece como extraordinário.
É neste ponto que o romance mais me interessa. O sagrado não desaparece com Deus. Muda de lugar. Deixa de depender de uma entidade exterior ao mundo e passa a poder irromper da própria matéria da vida, de uma paisagem, de um corpo, do amor, de uma mudança da luz ou até do cheiro de uma casa.
A morte de Deus retira, porém, uma garantia essencial. Já não existe um lugar fora do tempo onde aquilo que desaparece possa ser conservado. Os mortos poderão não ser reencontrados, o amor não possui promessa de eternidade e nenhuma ordem superior assegura que o sofrimento tenha sentido. Niels libertou-se da crença, mas não da fome que a transcendência alimentava.
É esse o seu drama mais profundo. Deseja permanência num mundo submetido à transformação, unidade numa consciência em movimento e plenitude numa existência que não pode ser subtraída ao tempo.
Quase no fim, já ferido, diz a Hjerrild que «não foi de todo assim que sonhámos alcançar a plenitude». O sonho falhou, mas não foi desmentido. A plenitude continuou a ser a medida. A beleza não se tornou ilusão por ser transitória. O amor não valeu menos porque terminou.
Depois de Deus, resta a poesia para dar forma ao que o tempo condena a desaparecer. Um livro marcante, profundamente actual, quase século e meio depois.
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