Leitura do mês


Há meses que andava com este livro nas mãos. Nunca tal me aconteceu. Ou abandono e sigo para outro, ou resisto e só o leio anos mais tarde. Com Malina, de Ingeborg Bachmann, foi diferente. O livro interessa-me, a voz interessa-me, mesmo quando me exigem coisas que por vezes não consigo dar. Fez-me sentir sono, irritação, fascínio, vontade de o fechar e de voltar a abri-lo.
Bachmann lembra-me uma amiga minha, também ela genial e muito querida. Admiro-lhe a inteligência, embora a intensidade por vezes me esgote. Clarice Lispector, por exemplo, possui uma intensidade semelhante, mas o pensamento é ondulante, abre respiros. Bachmann escreve por chicotadas. A sua escrita é uma centrifugadora que nos arrasta enquanto nos tritura.
A narradora foi a principal razão do cansaço. A consciência é acutilante, mas os saltos entre impulsos contrários fazem-na parecer, por vezes, uma tonta que não sabe o que quer. Basta esta cena: entra num restaurante com Malina, rejeita a mesa e a comida que habitualmente aprecia, lembra-se de Ivan, quer sair, sente culpa, decide regressar e retomar o jantar por ele, quando Malina já nem sabe se deseja continuar. Pouco depois, vê a sua cabeça rolar sobre o prato. Sangue por todos os lados. Surge perdida na própria rua, imagina uma história a partir da vizinha com quem se cruza, chega a casa, deita-se no chão, ouve Malina ordenar «Mata-o» e salta para a recordação de um tipo que conheceu no Instituto de Psicologia que lhe pergunta com quantos homens se deitou. Tudo isto em quatro páginas. A sucessão vertiginosa é quase regra ao longo do livro. Por vezes, seduzia-me; noutras, afastava-me, incapaz ou cansado demais para acompanhá-la. No final, percebe-se porquê. Esta mulher procura construir um «eu» morto à nascença. Um «eu» feminino, uma identidade para a qual nunca houve lugar. Como ela observa, esta «sociedade é o maior de todos os cenários de crime».
Ivan representa a beleza, a única beleza, como ela própria diz. Representa também a banalidade confortável de quem exige do outro aquilo que jamais terá de suportar. Elfriede Jelinek conta no posfácio que Bachmann considerava a maioria das pessoas semelhantes a Ivan. Ele diz à amante que deve ser feliz enquanto ela se despedaça para conseguir voltar a aproximar-se dele. E di-lo enquanto come salsichas. A violência nasce da desproporção. Para Ivan, a felicidade é uma recomendação proferida durante uma refeição; para ela, tornou-se uma tarefa impossível da qual depende um amor que nunca conheceu linguagem no feminino. Cada esforço para corresponder ao desejo dele aproxima-a do desaparecimento.
Malina oferece-lhe a segurança que falta em Ivan. Ela admira-o e inveja a sua capacidade de dispensar justificações, promessas e explicações. Ele diz sempre a palavra certa, ninguém o interroga, nenhuma manipulação parece alcançá-lo. A sua suposta segurança vem do lugar que já ocupa. As regras do mundo falam através dele, simplesmente por ser homem. Não será por acaso que o título do romance tem o seu nome. Sempre que ela tenta desafiá-lo, surge uma resposta racional pronta, como se a sociedade respondesse pela boca de Malina. A narradora hesita, contradiz-se, sente várias coisas ao mesmo tempo. Malina domina a linguagem reconhecida como coerente.
Ao longo do livro, lia-os cada vez mais como projecções interiores dela. Ivan concentrava o desejo inalcançável e Malina, a razão que lhe permitia sobreviver ao mesmo tempo que a tornava prisioneira. No decorrer da narrativa, a razão torna-se canibal e devora a identidade da mulher até ocupar, sozinha, o eixo central.
A segunda parte, dominada pela figura do pai, levou-me ao limite da leitura. As imagens tornam-se progressivamente mais violentas e circulam dentro de uma atmosfera claustrofóbica. Cheguei a um ponto em que já mal assimilava a violência. A leitura transformou-se num massacre psicológico, seguido por um profundo desinteresse que várias vezes me fez adormecer. A coerência do mecanismo convive com o meu afastamento. A figura do pai contém uma dimensão biográfica e amplia-se até se tornar o superego de uma sociedade inteira. A mãe transforma-se por vezes no pai, ao ponto de a narradora já não distinguir um do outro. É a mulher que aprendeu a sobreviver integrando os códigos masculinos e os transmite à filha com um zelo capaz de ultrapassar o do próprio homem. O poder tornou-se impessoal. Qualquer pessoa pode reproduzi-lo, porque as suas regras antecedem quem as aplica.
O final do livro reorganizou a minha leitura. «Foi assassínio», diz a narradora. O crime acontece dentro do lar, nas paredes antigas e muito fortes, como ela as descreve, nas nesgas onde as mulheres procuram sobreviver, submetidas desde o início a regras que lhes dizem até aquilo que devem sentir. A narradora desaparece numa fenda da parede e Malina recebe o vestígio com a mesma serenidade com que observa as manchas sobre os radiadores. A casa, espaço histórica e simbolicamente atribuído à mulher, absorve-a e continua habitável. Em vez de um quarto só seu, como o de Virginia Woolf, resta-lhe um intervalo minúsculo na parede, uma fenda sem nome onde se completa a ruptura do âmago. O homem é a norma, a mulher é o outro remetido aos interstícios. A acusação da frase final revela que o desaparecimento começou muito antes, quando a possibilidade do «eu» feminino foi excluída da história e da narrativa oficial. Toda a dramatização da protagonista, por vezes enredada até à exaustão do leitor, é um mecanismo para tornar sensível a agonia de um «eu» impossibilitado de encontrar forma.
Escolho Malina como leitura do mês pela experiência que me proporcionou. Deu-me luta durante meses. Cansou-me, irritou-me, adormeceu-me, fez-me rir e fazer figura de parvo em público. Obrigou-me a voltar e, no fim, a ver com olhos de ver. O meu exemplar está carregado de sublinhados e notas. A inteligência de Bachmann nunca me foi indiferente, mesmo quando a intensidade da escrita me afastava. O final iluminou o percurso sem corrigir a leitura intermitente que fui fazendo. Fechei o livro com alívio, mas com a compreensão expandida.
Malina ficará pela resistência que me exigiu e por aquilo que me obrigou a reconhecer. Nunca me tinha ocorrido que as mulheres nascem já condenadas pela linguagem. Bachmann tornou-o evidente. Enquanto homem, sou responsável e cúmplice de um sistema que me favorece, ao mesmo tempo que continua a abrir fendas e a empurrar mulheres para dentro delas. As conquistas alcançadas desde o pós-guerra do século XX não estão garantidas. Os extremismos do nosso tempo querem restaurar a velha ordem e voltar a emparedar as mulheres na casa, na obediência e no silêncio. Como Bachmann escreve, «É uma parede muito antiga, muito forte, de onde ninguém pode cair, que ninguém pode romper, de onde nunca mais se poderá ouvir nada.»
Comentários