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  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 4 de set. de 2025

Atualizado: 16 de set. de 2025

Não sabemos nada de nós próprios. Falamos sempre sobre os nossos desejos, e tentamos esconder-nos desesperada e inconscientemente. A vida torna-se quase interessante, quando já aprendeste as mentiras das pessoas, e começas a desfrutar e a notar que dizem sempre uma coisa diferente daquilo que pensam e querem realmente... Sim, um dia chega o reconhecimento da verdade: e isso significa a velhice e a morte.


Sándor Márai, 'As velas ardem até ao fim', editora Dom Quixote


 


Como uma conversa de velhos pode ser tão interessante! A acção resume-se quase exclusivamente a um jantar em que dois amigos, ou antigos amigos, se encontram após muitos anos de separação e resolvem dissecar alguns temas do passado. O jantar é mais um monólogo do que propriamente um diálogo, mas é tão incrivelmente inteligente e universal, tão atento à condição humana!

Este foi um daqueles livros que me marcou recentemente e ainda bem, pois há muito ansiava uma história que realmente incentivasse à leitura e me provocasse aquele frio no estômago. Noutro dia, alguém da área da filosofia disse-me... 'não tenho lido muita literatura ultimamente, prefiro ensaio ou então qualquer coisa que esteja relacionada com o que estou a estudar no momento'... como eu o compreendo! A partir de certa altura torna-se difícil encontrar ficção que realmente nos capte a atenção e seja capaz de transportar-nos para além do trivial quotidiano. 'As velas ardem até ao fim' de Sándor Márai é puro deleite para o pensamento.



 
 
 
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 3 de set. de 2025

Atualizado: 16 de set. de 2025


Vale do Douro. Miradouro de Casal de Loivos
Vale do Douro. Miradouro de Casal de Loivos

É estranha a minha empatia com o Douro. É uma coisa antiga. Lembro-me de em criança fazer passeios com os meus pais e já nessa altura sentir essa terra como minha. É como se cada elemento me falasse intimamente. Em cada socalco, em cada cipreste, em cada aglomerado branco que se ergue aqui ou ali, tudo parece tão familiar, como se a terra e a voz que escuto dentro minha cabeça falassem o mesmo idioma.



 
 
 
  • Foto do escritor: Vítor Leal Barros
    Vítor Leal Barros
  • 2 de set. de 2025

Atualizado: 16 de set. de 2025


Alexandra Barbosa, 'Conforto desconfortável I', 2011
Alexandra Barbosa, 'Conforto desconfortável I', 2011

Sobre a obra artístico de Alexandra Barbosa. Desde que vi o seu trabalho pela primeira vez houve uma afinidade imediata, que se estendeu ao campo pessoal assim que nos fomos conhecendo. 

A obra da Alexandra gira em torno de um tema que me é caro - a casa - e é interessante perceber como o pensam outros autores, que não arquitectos.

Antes de qualquer outra imagem de casa, a primeira que visita sempre o meu pensamento é a 'casa' enquanto espaço. Há no exercício diário do meu trabalho a vontade de entender como habitam ou podem habitar os outros. A minha busca passa essencialmente por adequar uma proposta a esses modos específicos de habitar e, sempre que possível, potencializá-los, desenhando soluções que possam gerar outras formas de poder fazê-lo. 

A maior dificuldade em todo este processo é encontrar o equilíbrio entre a materialização da ideia e a liberdade concedida ao público que dela vai usufruir. Que quero dizer com isto? Não me apraz a ideia de produzir uma arquitectura que se sobreponha ao habitar, cujas características do espaço obriguem o utilizador a viver desta ou daquela maneira. A questão que coloco em cada exercício é esta: até onde terei eu o direito de intervir, propondo simultaneamente novas formas de habitar? Penso que será para sempre a pergunta da minha vida. 

A fronteira entre uma arquitectura 'democrática' e criativa é muito ténue, a História comprova-o. As obras mais extraordinárias do ponto de vista criativo são muitas vezes exemplos de umaarquitectura 'ditadora', para não dizer quase sempre. O Barroco é um bom exemplo disso, produzir intencionalmente através do espaço uma ideia de ilusão no utilizador é, por si só, uma forma de manipulação, por mais generosas que possam ser as intenções que estão na sua génese.

Ao analisar cuidadosamente o trabalho da Alexandra, a questão que me colocava há pouco surge ainda mais pertinente. Para ela, a casa é sobretudo um refúgio, um local seguro onde podemos guardar as emoções e defender a memória. É o conceito de casa enquanto útero, que protege e alimenta, que cuida e acolhe. 

Toda a sua iconografia deambula em torno da ideia de casa-lar, casa-afecto, com todas as vicissitudes inerentes. A Alexandra não materializa nas nas suas gravuras a imagem de um lar perfeito. Ora nos deparamos com a casa-concha, protectora, ora ela surge como um eterno labirinto, pela sobreposição de formas geométricas que desenham espaços e percursos confusos, escadas e corredores que parecem levar-nos a lugar nenhum. 

No entanto, e apesar da maior ou menor serenidade de cada gravura, para a Alexandra a casa é sempre o porto de abrigo, o útero ao qual podemos sempre voltar, por mais ou menos errante que seja o caminho.  É uma casa mãe. É a casa que acolhe o filho fiel e o pródigo. É o pano de fundo da eterna imperfeição humana. É sobretudo, uma casa que não dita regras e compreende. 

São estas as casas que queremos Alexandra.



 
 
 
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